A palavra vermelho tem sua origem no latim vermillus, que
significa “pequeno verme”, remetendo-se a conchonilha, inseto do qual é
extraído o
corante carmim. O vermelho possui diferentes nomes devido
à variação de sua obtenção, que pode vir, como já foi dito, de um inseto, de um
minério
ou até mesmo de um vegetal – o urucum.
Supostamente, é a primeira cor percebida pelo homem.
Considerada a mais importante desde a pré-história por ser dotada de poderes
relacionados à vida. Simboliza o sangue e o fogo e, por
isto, diz-se que ele seduz, encoraja e provoca. Alerta, proíbe e inquieta.
Biologicamente,
provoca o aumento da pressão arterial, da pulsação e do ritmo
respiratório, ou seja, mexe nos estados internos do corpo. De acordo com a
psicologia
das cores, o vermelho significa motivação, atrai coisas
novas e incentiva o recomeço. É ainda o espírito do pioneirismo e da
persistência e, ao mesmo
tempo, da indecência, da grosseria, da crueldade, da
revolta e da brutalidade. Na política, o vermelho é constantemente associado à
Revolução. Enfim,
historicamente, a cor vermelha simboliza a luta diária do
coração humano por abrigar os sentimentos mais vivos da humanidade, como: o
amor, a
paixão e a ira.
Queremos o vermelho como conceito, como forma e conteúdo,
como tema e argumento dos nossos desejos mais inflamados, simbolizando um
estado de criação latente por abrigar “verdades
desconcertantes” que necessitam ser amplificadas e tornadas vivas pela matéria
presente do teatro -
que é trabalho do ator. A partir deste referencial
teórico, o Coletivo Grão Comum e a Gota Serena projetaram o pensamento de uma
Trilogia Vermelha.
São três obras a serem apresentadas: h(EU)stória – o
tempo em transe, pa(IDEIA) – pedagogia da libertação e pro(FÉ)ta – o bispo do
povo.
Nelas, encontramos a questão dos tempos e das memórias,
as questões do EU na fronteira entre o individual e o coletivo, explicações
sobre o Brasil
atual e sobre as relações indissociáveis da arte com a
política. A imperiosidade da prática formadora de natureza eminentemente ética
ou da educação
crítica como ação revolucionária, a trágica questão do
conhecer e, principalmente, do ignorar, a problematização do futuro e a
aplicação, nos seres
humanos, das melhores ideias pedagógicas desejosas de
autonomia e libertação. E, por fim, a fé como caminho de religação e de
espiritualidade, o
desarranjo da metafísica do ser social em confronto com a
crise de Deus.
Na dramaturgia de cada espetáculo, reelaboramos os
discursos históricos e as vidas dissonantes de três nordestinos que representam
o que o
Brasil tem de melhor enquanto figura humana na História e
pelo crescimento do mundo. São eles: O cineasta baiano Glauber Rocha, o educador
pernambucano Paulo Freire e o bispo cearense Dom Helder
Câmera.
Ao promover esta aproximação temática entre arte,
educação e religião de forma dialética, criamos espaços para exercitar como
atores criadores,
a teatralidade destes discursos dissonantes que tanto nos
interessa na atualidade. Nossa pesquisa é delineada pela linguagem da
performance (e as
vastas dimensões do teatro ritual), pelas formas
clássicas e hibridizadas do épico, do lírico e do dramático. Ou seja,
despertamos para um
aprofundamento da cena contemporânea entre ator e
espectador, estabelecendo diálogos diretos e tonificados sobre a realidade que
nos constitui
nesta existência comum. Como bem afirmou o crítico
Alexandre Figueiroa, queremos “experimentar, trilhar caminhos e fazer isto com
a alma aberta,
acreditando em suas escolhas e se jogando nelas com
amor”.
Em linhas gerais, a TRILOGIA VERMELHA é a nossa proposta
de pesquisa e experimentação, no âmbito do teatro adulto, que desejamos
oferecer
para as plateias que constituem a nossa sociedade
brasileira. Nossas ações englobam as seguintes atividades: apresentação dos
três espetáculos;
execução das oficinas
pedagógicas e livres intervenções no espaço urbano.
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